Momentos de Galileu
Obs: Antes de ler o texto abaixo, recomenda – se a leitura da biografia de Marco Martins, para melhor compreensão.
Terminando uma pintura em meu ateliê, me veio a vontade de escrever sobre as artes, principalmente a que amo. Embora inspirado, sentia a dificuldade de começar, até que algo aconteceu.
O telefone toca...
- Alô?
- É o Martins?
- Sim, quem fala?
- Adivinha?
- Pela voz... Não pode ser... Galileu?
- Fale meu querido Martins, pintor amante da luz e da sombra!
- Pô! Galileu, quanto tempo, você sumiu...
- Desculpe Martins, estive viajando, mas saiba que nunca me esqueço de você, e muito menos o apoio que você sempre me deu.
- E aí meu ídolo, como anda a vida?
Conheço a vida, a história deste pintor desde quando nascera. Conheceria mesmo se não quisesse, pois havia pensado nela várias vezes.
Galileu nasceu em mil novecentos e, e, ah! Não me lembro! Sempre tive problema com datas, mas jamais esqueci a história de um ser humano, principalmente de um artista, ao qual aprendi a amar e a respeitar.
Descendente de portugueses e espanhóis, Galileu, teve contato com a arte pela primeira vez, aos cinco anos. Dizia que ao se aproximar de um artista, que pintava um quadro inspirado em uma Igreja situada em frente a um jardim público, teve um momento de êxtase, como uma paixão... O cheiro da terebintina invadia seu pequeno corpo, o pincel com tintas se movimentava como uma bailarina irradiando vida e beleza. E tudo através da criação e das mãos do artista!
- Martins, imaginei que tivesse se esquecido de mim. Quero dizer que sempre o vi como um grande amigo e um grande artista; digo a você que quando tenho carinho e respeito por alguém, a distância está apenas no pensamento... E esse alguém sempre estará em meu coração.
- Galileu, saiba que penso do mesmo jeito, e o que você acaba de falar, tem tudo a ver com uma frase minha: "O fato das pessoas não estarem próximas umas das outras, não significa que estejam distantes. A verdadeira distância está no pensamento, pois quando se tem carinho, respeito e gratidão por alguém, essa distância não existe, e a amizade torna-se nobre e eterna!"
- Não sabia que você escrevia!
- Escrevo, às vezes...
- Martins, sonhei que teria que criar uma obra relacionada à decadência humana, criar uma instalação, sobre a queda de valores!
Galileu, um artista de alma, sensível ao mundo, vivendo há vários anos da arte, iniciou sua carreira como profissional em uma feira de arte, e ali conheceu pessoas, marchands, e seguiu seu caminho sempre acreditando que seria de fato um artista. O que mais me admirava nele era sua honestidade, primeiro com ele, e depois com as pessoas, dizia-me que para ser feliz, você precisa de fato ser honesto consigo próprio, jamais mentir a você mesmo!
- Galileu isso não é um sonho, é pura inspiração, cara você é louco até dormindo...
- Martins, comecei a estudar meus principais sentimentos: egoísmo, raiva, inveja, ódio, prazer e o maior de todos: o amor, que é simplesmente fascinante... Passei a entender muita coisa, tinha vários problemas que consegui resolvê-los. Lógico que entender é uma coisa, aceitar é outra. Mas aceitar é questão de tempo! Pude sentir que a vida é muito mais fascinante do que imaginava. No meu entender, passei a ser menos inteligente, e mais sábio!
- Galileu, ser inteligente, não é o mesmo que ser sábio?
- Não, Martins! Hoje entendo quando os poetas dizem enxergar no escuro. Quando olho um mendigo ou um bêbado caído numa sarjeta, me dá uma sensação de tristeza, consigo quase que num todo, encarnar em sua vida e, em um momento lindo, sinto suas dores, seus problemas! Outro dia, fiz um treinamento. Imaginei que era uma minhoca, passei a me torcer freneticamente, e senti medo. Imagino que tipo de medo o homem sentia na época das cavernas. Até parece que renasceu o que estava adormecido em mim, há milhões de anos!
O sentimento de medo em relação a estar exposto: passei a viver em uma cadeia ecológica, tive a sensação que seria comido, ao lado havia vários animais olhando para mim. Senti que tinha que entrar em qualquer buraco, e desesperado, corri. Minha esposa me chamou, mas não respondi, afinal, minhoca não fala. Ela então, preocupada, me procurou e me achou. Eu estava cavando um buraco no jardim!
-É Galileu, ou você estava drogado ou é um débil surrealista!