- Martins, para mim, existe uma diferença entre sabedoria e inteligência. Todos nós nascemos inteligentes estudando ou não. A sabedoria é genética; tem que ser lapidada. Os animais a tem! Como um passarinho faz um ninho? A inteligência é o estado físico da mente, mas a sabedoria... A sabedoria é a alma da mente, é poder ver o mundo, da forma que a maioria das pessoas não consegue; é enxergar toda uma história em uma simples palavra! Falando em passarinho, Martins aconteceu um fato engraçado: quando comecei a construir minha casa, no terreno havia um muro, num buraco desse muro, achei um ninho de curruira feito de arame recozido de construção! Não é fantástico? - Galileu estou começando a entender. - Darei a você Martins, um simples exemplo: - Em uma exposição minha, chega um casal. A mulher, observando uma obra, disse que gostaria de possuí-la. O marido, de nível universitário, comentou que seria bobagem, pois não gostava dessas coisas! Na mesma exposição, percebo uma senhora de trajes simples, apreciando um quadro. Ela ficou olhando, mais ou menos uns 15 minutos, para a obra, e depois vindo em minha direção, perguntou-me se era eu que havia pintado, e disse com esplêndida humildade: ”Pintor, sou analfabeta de pai e mãe, mas sei o que o senhor quis passar através de sua obra, pois consigo senti-la em meu coração!” - Então, pelo que pude entender Galileu, aquele senhor, fora educado para os estudos, negócios e não para a sensibilidade, a qual você chama de sabedoria. Imagino, se esse senhor, além de inteligente, fosse sensível, ou seja, sábio. Como seria sua vida, sua cidade, seu mundo? É a vida Galileu... A sensibilidade teria que estar em tudo o que há nesse mundo, nas mínimas coisas, entendo que não somos perfeitos. Se todas as pessoas fossem sábias, seríamos seres de luz. Seus pensamentos... Não seria utopia? - Talvez, Martins... Martins, estou te incomodando? - Absolutamente, com um maluco igual a você, só tenho a aprender! - Martins, entrei em seu site e vi seu ateliê. O reboque caiu? Cuidado para não desmoronar na sua cabeça! - Gostou? Várias pessoas já perguntaram se eu iria rebocar a parede do ateliê. (Momentos de descontração). Outro dia, duas mulheres, chamadas aqui em Mogi de Margaridas, estavam varrendo a rua em frente ao ateliê e me perguntaram se a parede iria ficar daquele jeito. Respondi que sim, que era uma obra de arte. Elas riram, e uma disse para a outra que se isso era arte, iria deixar a parede de seu barraco sem rebocar! - Parabéns Martins! Vejo um artista pintando dentro de uma obra de arte! Você criou o ateliê inspirado em suas pinturas e o seu estúdio não é nada mais, nada menos, que um quadro em terceira dimensão! - Pelo menos, era essa a idéia. Matou na mosca! E falando em mosca, estou com um problemão em meu ateliê. - Qual? - Moscas! Cara, aparece cada mosca pré-histórica, que para não mentir, é do tamanho de um passarinho. O ateliê tem uma entrada e duas vitrines. A mosca entra e quer sair. Fica batendo a cabeça no vidro, devido à luminosidade, e imagina que ali é a saída. - Martins, do tamanho de um passarinho? Você não criou nada que pudesse resolver esse problema? - Tentei de tudo, cheguei até colocar um cartaz com os dizeres: "É proibido à entrada de moscas e mosquitos; se caso entrarem, a saída é pelo mesmo lugar". Mas, descobri que cabeça de mosca, é simplesmente cabeça de mosca. - E eu que sou surrealista? Martins, com essa conversa, você é que vai pagar a conta do telefone... Tem pintado muito, Martins? - Graças a Deus, sim. - E tem vendido bem? - Razoavelmente sim, você sabe que a maior parte de meus quadros vai para leilões e galerias de arte, e quando abri o ateliê minha intenção era mostrar aos mogianos um artista profissional de sua cidade, que vive exclusivamente da arte, como de fato ele produz, como pensa... Fui surpreendido. Vários mogianos passaram a colecionar minhas obras. Fiquei muito feliz em receber pessoas de diferentes estados que já possuíam minhas telas, mas que não me conheciam pessoalmente. Um desses foi um grande empresário paulista, que me acordou às oito horas da manhã, disse que possuía quadros meus, adquiridos em leilões de arte pela televisão e gostaria de me conhecer pessoalmente. Fui ao ateliê, e o conheci. Era um japonês, de extrema simpatia, que acabou adquirindo mais dois quadros. - Galileu só sinto que quando vendemos um quadro, nunca ficamos com o original, e sim, com a cópia, ou seja, uma foto. É diferente de um escritor, compositor, etc., que vendem a cópia e ficam com o original. - Seu filósofo de araque! Martins lembre-se: Nunca existiram proprietários de obras de artes, e sim, o possuidor dos direitos sobre ela, pois a arte é, e sempre será, um patrimônio da humanidade! Martins, e além de seu conhecido estilo? - Criei uma obra de interatividade, arte de bienal. - Arte moderna? Qual? -"Boceta de Pandora", obra de conceitos filosóficos. - Legal Martins, não imaginava que você gostasse de pensar, filosofar... - Pelo menos tento, Galileu. Tento imaginar o que há por trás de uma simples cor vermelha... - Nossa! Isso é sabedoria. E o que há por trás da cor vermelha? - Todo um mundo... Há um livro de 1000 páginas, é algo que li num livro de minha filha. - Conte-me sobre "Boceta de Pandora"... |